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Pensão Finezas

Alegrias, tristezas e aconchego para umas tantas fraquezas...

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Alegrias, tristezas e aconchego para umas tantas fraquezas...

29
Abr21

"Peter Pan" de Régis Loisel

Adaptação livre inspirada nas personagens de Sir James Matthew Barrie

Tácia do Ó

Ainda “PETER PAN” de RÉGIS LOISEL e alguns comentários às legendas em língua portuguesa do álbum publicado pela “ASA-PÚBLICO” no passado dia 15.4.2021.

Durante os anos 90 fiz parte de um Estúdio onde eram feitas a maioria das traduções e respectivas legendas dos álbuns de banda desenhada editados em Portugal, sendo o grosso do trabalho para a “Walt Disney Portuguesa”. Durante esses quase 10 anos foi uma equipa coesa, composta por tradutores, desenhadores de letras, revisor de língua portuguesa (além de um protocolo com a Sociedade de Língua Portuguesa – SLP para opinar, rever e aportuguesar variadas expressões, como interjeições, onomatopeias e outros falares característicos desta Arte). Recebiam-se os álbuns quase sempre nas edições originais e o trabalho de traduzir era entregue ao elemento disponível e no final o outro tradutor/a que fazia parceria (eram grupos de dois tradutores), fazia a revisão à tradução do colega. Normalmente as dúvidas eram resolvidas por consenso mas, em casos extremos, a Dra. Helena Matos ou a SLP (através do Dr. José Neves Henriques) ou mesmo a Editora acabavam por ter a palavra final. De seguida, escolhia-se o tipo de letra mais próximo do original e era feita a legendagem manual (com canetas, aparos, “rotrings” sobre película “draftex”) e, também em casos de dificuldades ou falta de espaço no balão, a tradutora fazia a respectiva alteração ou então compunha-se o texto com mais linhas. No final, as legendas eram revistas e lidas uma ou duas vezes, consoante as características do álbum, por um outro ou mais elementos daquele grupo de colaboradores. O trabalho de grupo era produtivo e deu-nos conhecimentos para além da mera função que tínhamos dentro da equipa. Finalmente o trabalho era entregue às Editoras. (Por exemplo, o álbum “A Marca Amarela” foi lido três vezes em que uma das vezes o texto estava invertido e, mesmo assim, foi descoberto um erro depois da edição já estar impressa.)

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O saudoso Geraldes Lino fazia jus a que o tipo de legendas, manual ou mecânico, devia constar na “ficha técnica”. Meses houve em que o volume de trabalho era tal que ultrapassávamos as 1200 páginas/mês, envolvendo cerca de 15 pessoas. Além de Portugal, Itália e Espanha, o Brasil também nos encomendou traduções/adaptações e legendas para imensas revistas... Bom, mas tudo isto acontecia no século passado; entretanto o tempo corre célere e já entrámos na terceira década de um novo milénio e as legendas deixaram de ser feitas à mão e o resultado, numa breve e única leitura que fiz – não sendo o mais esclarecido -, parece não ser brilhante. Longe de ser um primor também não é um “desastre”! Mas para uma edição tão badalada e que se queria o mais perfeita possível – só a nível das legendas, porque da tradução, onde me encontro, não tenho acesso à edição original – existem lapsos inaceitáveis e desconhecimento de algumas regras elementares de língua portuguesa como também da linguagem própria desta digna Arte – digna, quando é respeitada e tratada com saber!

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Edição portuguesa - Tradução: Sara Moreira - Paginação e capa: Nuno Portugal

“Peter Pan” – Londres. Texto, desenhos e cor de Loisel a partir de uma adaptação livre inspirada nas personagens de Sir James Matthew Barrie:

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Página (pág.) 12, Vinheta (v.) 4, Balão (b.) 1, 2 e 3 ou, mais simplesmente, p12 v4 b1, 2 e 3: em princípio o texto devia ser em itálico (mesmo não sendo no original) porque os que falam – discurso directo – não estão presentes nem o/s balão/ões têm qualquer seta indicando a presença dos intervenientes nos diálogos (personagens).

P13 v1 b2: “…PFFF…” (PFFF, em itálico). Todos os sons que são provocados pelo personagem que fala, normalmente de uma forma involuntária (suspirar, mastigar, bocejar, tossir, respirar…) e que sejam escritos no mesmo tipo de letra do restante texto, dentro dos contornos do balão, deviam ser grafados em itálico ou dentro de parênteses.

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P20 v5 b2: “…um espetáculo…” (“…um espectáculo…”). O balão está em “Acordês” , mas se se optou pela grafia do português anterior ao “AO90”, ou seja, “AO45”, tal como acontece com um dos parceiros da edição, “O Público”, então é erro. Existe uma extensa lista de termos aconselháveis de dupla grafia mas onde espetáculo/espectáculo não se inclui.

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P21 v2 b1: “…3 pence…” (pence, em itálico). “Pence” não existe no vocabulário português, logo, sendo estrangeirismo (independentemente do que possa representar) deverá ser assinalado ou com aspas ou em itálico, à semelhança do que acontece nos restantes balões.

P23 v1 b1e 2: Balões ou textos trocados? O balão mais “à esquerda” do desenho, 1, pode ter o texto do balão mais “em cima”, 2, e este balão o texto do balão 1. É necessário verificar o original porque o grafismo e as setas dos balões, só por si, podem induzir em erro.

P23 v2, 3, 7 e 9: “Grande Glutão”. Nas palavras do Sr. Kundal é escrito com aspas, mas nas de Peter, já não. É aceitável? Talvez, mas só porque o Sr. Kundal atribui um determinado sentido/intenção que Peter ignora por completo. Aqui o texto original tem importância (e deve ser conferido) porque é uma ideia do Autor que convém respeitar. Não se confirmando esta premissa então foi lapso.

P24 v2 b2: “…porque…” (“…por que…”). Como advérbio interrogativo (ou conjunção causal) há gramáticos que aconselham que se deve escrever em uma palavra só - uma unidade mórfica - e outros afirmam ser mais correcto o “por que” em duas palavras…

P25 v4 b1: “…nas costas do Diabo…” (…”nas costas do Diabo”…). É uma expressão que podia levar aspas reforçando assim a carga semântica/metafórica da mesma. O texto em BD embora seja importante e quase sempre necessário, normalmente assume uma importância secundária em relação ao desenho, daí que, quando ele exista, preferencialmente seja claro e específico não deixando dúvidas sobre a mensagem que se quer fazer passar.

P28 v5/6 b2/1: “…IH IH!” ou “...IH, (vírgula) IH!” Estando este tipo de interjeições/onomatopeias (riso, ironia, grito de emoção…) sujeitas a uma determinada cadência e/ou ritmo, aceita-se por bem que a presença de vírgulas é útil e ajuda a clarificar as várias vocalizações/expressões. No entanto, graficamente ou em BD a ausência de vírgulas pode ser compensada com “espaços”, reticências e/ou uso de hífen. 

P30 v1 b1: Os textos em português ao contrário do que acontece, por exemplo, em espanhol (castelhano) habitualmente não têm pontuação no início das frases (marcações gráficas que ajudam na coesão e coerência textual), exceptuando-se raras situações como sejam as reticências (…). No entanto, em BD a linguagem é um pouco diferente e estas exclamações ou interrogações podem surgir desde que graficamente distanciados do restante texto. Este balão é um exemplo disso, no entanto parece ter havido um certo descuido ou desinteresse/capacidade criativa pelo mesmo… Quando um balão fica incompleto/imperfeito é uma decisão que ficou por tomar e raramente será uma opção (exceptuam-se problemas de cor/ tipografia que não parece ser o caso)!

P31 v2 b1: Ver p30 v1 b1.

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P32 v5 b1: A divisão silábica (em linha ou na translineação) de GARRAFA é GAR-RA-FA e não GA-RRA-FA como está erradamente escrito; qualquer dicionário da especialidade o pode confirmar. Mesmo graficamente e tendo em conta as características próprias da BD não está correcto!

P38 v5 b1: “…rapariga fada.” ou “…rapariga-fada”. Porque de facto não se trata de uma rapariga mas sim de um “sininho”.

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P42 v1 b1: “…sim, J… orge…”. Se não se traduzem outros nomes, este – Jorge -, em princípio, também devia manter a sua versão original (apesar da ideia não ser consensual). A não ser que haja um português infiltrado nesta história?!... (Consultar original)

P47 v5 b1: “Mas porque…” (“Mas por que…”). Ver: p24 v2 b2.

P49 v5 b2: “ZZZ… ZZZ… ZZZ…” (texto em itálico). Mesmo não estando no original e estando escrito com o mesmo tipo de letra, seria preferível, à semelhança de “SLURP!”, “PFFF…”, “HIC!”, “PSST!”... Assim acontece com muitos outros sons, desde que dentro do balão. Ver: p13 v1 b2.

P52 v7 b1, 2. 3 e 4: (texto em itálico). Os personagens não estão enquadrados no desenho (vinheta/quadrinho/quadradinho…) nem os balões têm seta correspondendo a discurso directo. Ver: p12 v4 b1, 2 e 3.

Como nota final, acrescentar que o texto/tradução tem “boa leitura”, apesar de conter algumas expressões que marcadamente estão em oposição à norma linguística portuguesa, o que acontece cada vez mais (nos meios de comunicação social, redes sociais, “internet”…), perante o total alheamento das Entidades, públicas ou privadas, que deviam zelar pelo bom-nome da Língua Portuguesa. Mas estar-se atento, empenhado e ser-se bom leitor de Banda Desenhada também pode ajudar a contribuir para que futuras edições possam ser melhoradas. Boas leituras!...

A seguir: comentários às legendas do 2º volume, OPIKANOBA.

(Este blogue é da autoria de Tácia do Ó que me concedeu este espaço para publicação deste texto. Obrigado!)

João Neves