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Pensão Finezas

Alegrias, tristezas e aconchego para umas tantas fraquezas...

Pensão Finezas

Alegrias, tristezas e aconchego para umas tantas fraquezas...

29
Jul20

Novos Talentos FNAC 2020 - "Pensão Finezas III"

Tácia do Ó

E com esta III Parte dou por concluído o conto "Pensão Finezas", que continha cerca de 12000 caracteres, mais ou menos cinco páginas A4 e que me motivou a participar no desafio...

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Mas não foram nem os Santos nem a Igreja que explicaram os “barulhos nocturnos” daquela casa. A seu tempo foi benzida e soube-se que ali tinha existido um lar de acolhimento para meninos, deixados à sua sorte e privados de uma família e do colo de uma mãe. Rejeições, abandonos, doenças e muitas outras coisas - que não lembra ao Diabo! - iam lá deixar à porta. E a "Ama”, que deles cuidava, mulher rubra e de saia de roda, até fazia o que podia, mas milagres, ela não conseguia! E no fim, os que não resistiam - a imensa maioria! - eram ali enterrados, principalmente no quintal e junto às paredes onde o chão era de terra batida. Outros tempos…

Com o fim da Pensão a casa foi posta à venda e a placa à janela, tonta de tanto baloiçar, confirmava-o. Aproximei-me e a porta entreaberta convidou-me a entrar. Estava irreconhecível, nua, cabisbaixa e quase sem vida. Segui em frente e, “às surdas”, fui entrando… Sentei-me na cansada escadaria do quintal e olhei arrepiado a enorme palmeira que ali tinha nascido. Irresoluto, fiquei parado no tempo…

E do nada começaram a surgir singulares formas e pequenos vultos em redor da terra e por todo o quintal; seres-luz de bibes e roupinhas rasgadas elevaram-se e num momento mágico ganharam forma. Do cimo, um celestial som abraçou o lugar em rebuliço, envolvendo as crianças que, irrequietas e num crescente desassossego, inundavam todo o quintal com uma luminescência e um encantamento sem igual!...

-- Ide, meninos! Libertai-vos sem dor nem mágoa das trevas e da terra que fizestes parte, subi a palmeira e contemplai os céus sem-fim! Ide todos e procurai a estrela mais bonita do firmamento, aquela que há muito vos aguarda no seu regaço – aquela que mereceis!...

Fiquei exausto e o tempo voou! Já na rua, parei e olhei a noite que brilhava como nunca!

Os meninos tinham finalmente encontrado o seu devido lugar e aquela bendita estrela nunca mais deixaria de brilhar!...

Almas enjeitadas, histórias esquecidas, mulheres da vida, alegrias, tristezas e aconchego para tantas fraquezas. Era assim na “Pensão Finezas”…