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Pensão Finezas

Alegrias, tristezas e aconchego para umas tantas fraquezas...

Pensão Finezas

Alegrias, tristezas e aconchego para umas tantas fraquezas...

14
Jul20

Novos Talentos FNAC 2020 - "Pensão Finezas"

Tácia do Ó

Concorri, embora já não seja tão jovem assim, mas, concorri aos "Novos talentos FNAC - 2020. No regulamento não havia idade limite mas, estranhamente e durante a revelação dos vencedores, um dos jurados veio dizer que davam preferência àqueles que ainda pudessem vir a ter uma carreira como escritores, ou seja, aos mais novos... Então e aos 40, 50, 60 ou mais, já não se pode ser escritor/a? E porque não plasmaram (como é moda dizer-se agora) essa opção ou critério no regulamento?...

Em conversa com outros participantes no concurso, soube que um deles até pediu ausência do emprego e, naturalmente, suspensão do vencimento para poder participar e escrever um conto para este concurso da FNAC, que já vai na 18ª edição. O Senhor tem 60 anos e legitimamente ainda acalenta o sonho de um dia poder escrever e publicar os seus livros! Não o conseguiu aos 30 anos, nem aos 40 nem aos 50 mas agora que entrou nos 60 continua com uma vontade férrea de o conseguir e até me disse: "Colaboro em várias publicações regionais mas ainda não perdi a esperança de escrever livros e tudo farei para o conseguir!"

Na minha óptica acho que tem toda a legitimidade e este concurso até poderia ser um bom pretexto para o conseguir se a FNAC ou os seus jurados tivessem tido um pouco mais de ponderação com este ou outros mais que têm a mesma ou mais idade, mais experiência e talvez até mais saber literário, provavelmente. E a verdade é que à partida o regulamento punha em igualdade todos os concorrentes, independentemente da sua idade, mas à chegada (ou seja, na entrega dos prémios) o escritor João Tordo, um dos jurados, veio dar o dito por não dito e assim invalidou uma série de trabalhos onde provavelmente a história deste incansável Senhor devia estar incluída. Além de falta de respeito, creio que há aqui alguma falta de profissionalismo, também... Não raras vezes e já não é de agora que quando se ganha ou se perde um concurso, ou um prémio, não se é necessariamente o melhor ou o pior, mas sim, é apenas o resultado de um conjunto de circunstâncias ou até mesmo um fortuito acaso que, de alguma forma, dita e favoreceu mais uns e menos outros...  

O meu conto tem o nome deste blogue e, não é nem mais nem menos, do que um resumo do que me proponho aqui fazer: escrever o que a memória me permitir ou o que os relatos de alguns amigos e familiares me contaram sobre o que foi a "Pensão Finezas"; muito do que lá se passou e alguns dos seus mais carismáticos hóspedes e suas vidas, que de alguma forma também ajudam a caracterizar o meio e a sociedade da época e, de uma forma geral, toda a vila de Santiago... Como o conto tem cerca de cinco páginas, achei por bem dividi-lo em três partes para que a "indigestão" não seja tão dolorosa. Assim sendo, vou começar com a primeira e, nos dias seguintes, segui-se-ão as restantes.

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Pensão Finezas -- Parte I

A "Pensão Finezas" foi criada e deve ter aberto as suas portas pela primeira vez em meados de 1800, mais coisa, menos coisa… Certamente por alguém desta mesma família que sempre a geriu (o mais provável é que tenha sido pelo meu bisavô, filho do Conde de Avilez e de uma sua criada) e assim permaneceu até 2005, quando a sua última proprietária faleceu: Catarina Finezas, a minha dilecta tia...

Quando soube da sua morte, eu já lá não estava; tinha vindo pela mão dos meus pais para a cidade-capital, mas continuava a ter laços, até mesmo umbilicais, àquela imensa casa que me vira nascer, crescer e dar as primeiras corridas pelas labirínticas ruelas da vila... Santiago era um presépio à volta do Castelo! Aquele casario todo, como que em perfeita comunhão, de mão dada e encimada pela Igreja Matriz que mais parecia um altar!... E, quando o Sol se escondia, por detrás das muralhas, o céu tornava-se incandescente e jorrava luz e fogo por tudo o que era pedaço de terra e a vista alcançava... Às vezes ainda sinto o cheiro da velha Santiago, do Azi (que dormia no cemitério e cantava que nem um rouxinol), do Mel ("Se me derem alguma coisa não me parece Mel"), do Luisinho (que quando o levaram para um hospício, a todos enganou e quem lá ficou foram os que o queriam internar), do grande Estafeta (que nas suas idas e vindas a Lisboa, deu incontáveis voltas ao mundo) e de tantos outros que por lá andaram.

Sendo uma casa secular, acompanhou ao longo de muitas décadas a História e as muitas peripécias deste país e atravessou períodos de grandes conflitos e até privações. Mas também houve algum bem-estar, com muita gente hospedada e com "pensão completa", o que na altura, devia ser a refeição principal e mais qualquer coisa à ceia. Não faltavam clientes nem odores no ar (casas de banho não existiam, apenas bidés e lavatórios de metal e uma ou outra banheira de cobre ou latão, para lavagens ocasionais ao corpo) com matança de porco, enchidos e, se o negócio melhor não ia é porque o proprietário era generoso e a todos fiava. O que mais tarde se revelou um verdadeiro desastre! Mas, na altura o pensamento era outro e o esforço e a dedicação ao trabalho não tinham necessariamente que ter proveito ou resultado financeiro - embora fosse desejável! Ainda havia algo que hoje está em completo desuso: o gosto e o amor de fazer as coisas pela causa de bem agradar, de bem servir e de ir ao encontro das necessidades daqueles que por ali pernoitavam ou se fixavam durante uns tempos! E depois, há a tal tradição: as gentes desta região sempre tiveram fama de ajudar e servir bem sem olhar a quem!... 

Fazendo fé nas palavras de Eugénio Finezas, o seu pai e provável criador da Pensão (meio-irmão do primeiro homem que introduziu o automóvel em Portugal) era filho do Conde de Avilez e foi enviado, juntamente com a mãe - certamente também com alguns patacos à mistura, já que era filho ilegítimo! - para São Teotónio, de onde mais tarde deve ter regressado à procura das suas origens e, possivelmente, para ali se fixar e estabelecer. A vida não devia ser fácil nesses tempos, mas entre altos e baixos e mesmo com um pai que o renegou, o jovem cresceu, casou e a casa de dormidas, embora ainda sem nome, lá foi dando os primeiros passos... Até que, naturalmente, surgiu um primeiro filho, que viria a receber o nome de Eugénio das Neves. Rapaz activo, destemido e brincalhão, ao ponto de quando saltava de um banco ou de um muro mais alto para o chão, exclamava para os amigos: "Ei, moços, querem ver eu a fazer uma fineza?..." Tanto o repetiu que Eugénio ganhou um novo apelido e a Pensão ganhava, finalmente, nome próprio!... E, longe de ser brilhante a orientar o negócio, que entretanto recebera do progenitor, foi exímio a tocar música e na distinta arte de alfaiataria. E assim, gradualmente a pequena e triste vila, à volta do Castelo, passou a conhecê-lo como... "Mestre Finezas"!   (Cont.)                                 

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