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Pensão Finezas

Alegrias, tristezas e aconchego para umas tantas fraquezas...

Pensão Finezas

Alegrias, tristezas e aconchego para umas tantas fraquezas...

12
Jan18

Manuel da Fonseca e "Mestre Finezas"

Tácia do Ó

 

 

Uma após outra as doze badaladas caíram vagarosamente sobre o casario... O sino da torre levou bem longe o som da meia-noite. Tinha começado um novo ano!

O escuro era quase total e o frio particularmente intenso neste Inverno. Mas nas ruas não havia lugar a festejos ou alegrias, apesar da proclamação da República a 5 de Outubro do ano anterior; a miséria e a incerteza da vida política condicionava o país e em particular esta vila e as suas gentes. Viviam-se dias de profunda e inquietante mudança.

Em 1908, três anos antes, o atentado no Terreiro do Paço, tinha tirado a vida ao Rei D. Carlos I e ao Príncipe D. Luís Filipe de Bragança a que se seguiu a regência do irmão,  D. Manuel II. Mas a fragilidade da sua liderança e os sucessivos confrontos, guerras políticas e forte instabilidade social levaram à sua queda.  A Monarquia Europeia ainda estava incrédula e a Nação dividida entre novos ideais políticos e a procura de possíveis culpados ainda a monte...

Mas, em contrapartida, agora o país tinha finalmente uma nova Constituição e estava preparado, no dizer dos Republicanos, para os difíceis tempos que se avizinhavam.

E a 15 de Outubro nascia em Santiago de Cacém um jovem, franzino, oriundo de uma família socialmente bem posicionada, que viria a receber o nome de Manuel Lopes Fonseca.

Corria o bem-aventurado ano de 1911... 

 

Mas, apesar disso, eram tempos difíceis, esses, com vastas áreas do país rural a viverem em condições de miséria e fome e, como se isso não fosse suficiente, três anos depois as coisas agravar-se-iam ainda mais com a declaração da Iª Grande Guerra. São mais quatro penosos anos de dificuldades, restrições e sofrimentos que inevitavelmente atingem o país. E quando tudo se encaminhava para o Armistício, surge imparável a pneumónica ou "Gripe Espanhola" que, impiedosa, ceifa vidas, umas atrás das outras. Só em Lisboa chegam a morrer 250 pessoas por dia, em alguns períodos mais agudos da doença.

Manuel Lopes Fonseca (mais tarde, Manuel da Fonseca), tem de crescer depressa e aprender a conhecer o mundo que o rodeia... Ainda menino, percorre a sua terra e, juntamente com outros mais, descobre as ruas, os largos e os campos em redor da vila e começa gradualmente a sentir e a ver as gentes que o rodeiam. Pelas sábias mãos de seu pai, contacta com autores como Herculano, João de Deus, Júlio Verne e, mais tarde, nos estudos secundários, parte para a capital.

Um novo e fascinante mundo o desperta, com novos amigos, novas experiências, novos saberes, novas actividades e muita vontade de escrever e denunciar o que considera errado. Conhece gente de todos os quadrantes políticos, sociais, das Artes e da cultura em geral. Sucedem-se tertúlias, debates, encontros e discussões sobre belas-artes, literatura e a inevitável paixão pelos livros proibidos pela Ditadura, que entretanto se instala no país e que prossegue no Estado Novo. Começa a publicar a sua poesia e trabalha em jornais, revistas e publicações várias e mais tarde será considerado precursor do Neo-Realismo; em 1940 é editado "Rosa dos Ventos"; segue-se "Planície", depois "Aldeia Nova", "Cerromaior", "O Fogo e as Cinzas", "Seara de Vento"... 

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Manuel da Fonseca. Foto de Rui Pacheco em Santiago de Cacém, Romeirinhas, 1981.

 

Mas os textos em prosa e em poesia, as intervenções políticas, os debates, as tertúlias, a prisão e a polícia não lhe davam uma vida fácil e, entre inúmeras outras aventuras e peripécias, também passou dificuldades e agruras e, como tal, teve de aprender a defender-se; por isso, um dia e sabendo que a polícia política seguia de perto os seus escritos, decide ir ao encontro de um amigo e conhecido, o "Mestre Finezas" (que, como já se disse na anterior postagem, era alfaiate, músico e proprietário da "Pensão Finezas". E era conhecido na terra como "Mestre Finezas", dadas as suas actividades e facetas artísticas).

A certa altura disse-lhe que acabara de escrever mais um conto, desta vez passando-se a acção numa barbearia, onde o protagonista principal era um barbeiro que com a sua tesoura bem afiada cortava o cabelo à amedrontada rapaziada do seu tempo; na verdade o barbeiro era conhecido de ambos e também na vila, como “Chico da Loja” porque de facto ele se chamava Francisco e a barbearia existia onde outrora tinha havido uma loja. Mas se ele mantivesse estes nomes, certamente que a polícia o iria importunar ("Quem é você para escrever sobre a vida do barbeiro? O que é que você tem a ver com a vida do homem?") e, assim, Manuel da Fonseca, pedia autorização para colocar o nome de "Mestre Finezas" de forma a evitar mais problemas com as autoridades. Alterando os nomes, de alguma forma, ficcionava-se a história e talvez a Censura nem percebesse... "Mestre Finezas" foi pronto na resposta: "Como o amigo Manuel entender!" E assim, o barbeiro "Chico da Loja" passou a chamar-se "Mestre Finezas"!

Infelizmente, a maior parte dos políticos não têm saber, não consultam livros, não ouvem as populações e nem guardam memória desses tempos, daí que a barbearia já tenha sido destruída para dar lugar a uma habitação ao nível do rés-do-chão.

 

Dos muitos amigos e companheiros com quem partilhou longas caminhadas e sagazes lutas, foi Baptista Bastos que num "adeus" ao eterno amigo, escreveu: "E, certa tarde, regressou a Santiago de Cacém. Sem dizer nada. Eu ia lá, vê-lo e conversá-lo. Levava-me até ao Castelo, onde fica o cemitério e apontava o chão sagrado. É aqui, sabes? É aqui. Bebíamos um pouco e devagar. O homem sábio e antigo quedava-se, no silêncio da tarde, no silêncio de todas as palavras. Depois ergueu-se e, pausadamente, atravessou os umbrais da eternidade." 

Armando Baptista Bastos foi ao seu encontro a 9 de Maio de 2017 e Eugénio Finezas, ou melhor, "Mestre Finezas" como alfaiate que tinha sido, partira muito mais cedo, talvez para melhor poder preparar os muitos fatos de anjo para os restantes amigos que mais tarde iria receber... lá no cimo, bem lá no alto, no Firmamento, onde aquela bendita estrela, ainda hoje, não pára de brilhar. Bem-hajam!...

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Capa do Jornal de Letras, Artes e Ideias, comemorativa dos cem anos do nascimento de Alves Redol e Manuel da Fonseca, 1911-2011. Director, José Carlos de Vasconcelos.

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